Bombas Lançadas Acidentalmente Por Caça da FAB em Formiga Geram Pânico e Indenização Milionária de R$ 5 Milhões

Em 1987, dois artefatos inertes de 230 kg caíram durante treinamento, atingindo o Parque de Exposições e caindo próximo a uma escola cheia de crianças. O ex-prefeito Eduardo Brás resistiu à pressão militar e garantiu os recursos para obras no município.

Formiga, MG — O dia 2 de abril de 1987 ficou gravado na memória de Formiga, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Em plena tarde de quinta-feira, duas bombas despencaram do céu, lançadas acidentalmente por um caça da Força Aérea Brasileira (FAB) durante uma missão de treinamento. Apesar de os artefatos estarem sem carga explosiva e serem preenchidos com concreto, o incidente causou pânico generalizado entre os moradores.

Segundo registros da época, dois caças F-5 sobrevoavam a cidade em uma missão para simular um ataque a uma ponte ferroviária no bairro Vargem Grande. Por um erro no comando, os dois projéteis, que pesavam cerca de 200 kg cada, foram liberados de um dos aviões.

Uma das bombas atingiu um muro do Parque de Exposições Luiz Rodrigues Belo Primo. A segunda caiu a cerca de 20 metros de um galpão que abrigava a Escola Estadual Aureliano Rodrigues Nunes, onde estavam centenas de crianças. Milagrosamente, ninguém se feriu.

“Um dos pilotos, sem querer, apertou o comando, e caíram duas ogivas. Elas não tinham espoleta, por isso, não explodiram. Se tivesse sido dentro do prédio, seria uma tragédia sem precedentes”, relatou o historiador Helton da Costa Pinto.


Pânico Coletivo e Confronto com a Aeronáutica

O impacto contra o solo foi ensurdecedor. O estrondo fez janelas tremerem, portas baterem e gerou pânico. O então prefeito Eduardo Brás, hoje com 75 anos, lembrou que o primeiro sentimento foi de alívio por não ter havido vítimas, mas o trauma foi coletivo. Ele conta que, à época, a população pensou que a cidade estava sendo bombardeada em represália a um protesto que acontecia no Centro contra a política econômica do governo de José Sarney.

A situação se acirrou com a chegada de militares, que exigiram a entrega imediata dos artefatos. As bombas, que se enterraram a mais de dez metros de profundidade, foram retiradas com retroescavadeira da Prefeitura. O prefeito resistiu à pressão e chegou a enfrentar um general dentro do gabinete.

“Não entreguei as bombas, afinal, mais pressão que a Aeronáutica fizesse, eu não deixei tirar daqui, porque aquilo era prova de um crime”, disse Eduardo. Ele só concordou em liberar as bombas após negociar uma indenização para o município.


Indenização Milionária Transforma Tragédia em Conquista

Diante da grande repercussão nacional do caso, o governo federal teve que agir. Em junho de 1987, a Aeronáutica pagou ao município uma indenização de 1,5 milhão de cruzados — o equivalente a R$ 5 milhões atualmente.

Os recursos da indenização foram aplicados em obras essenciais que estavam paradas, como a conclusão do Terminal Rodoviário Presidente Tancredo Neves e a abertura da Avenida Tabelião Gil Calmeida. “Esse dinheiro foi essencial para obras que estavam paradas. No fim, conseguimos transformar a tragédia em conquista”, resumiu o ex-prefeito.

Apesar de o ex-prefeito não considerar o episódio um “troféu”, uma das cápsulas permanece exposta na Praça da Bomba, construída exatamente no ponto da queda, mantendo viva a lembrança do dia em que Formiga virou notícia no mundo.

O g1 entrou em contato com a FAB, mas não obteve retorno sobre o acidente ou as medidas adotadas atualmente para prevenir episódios semelhantes.

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