Novos estudos revelam que reclamar em excesso pode reduzir o hipocampo e liberar hormônios do estresse, impactando memória, cognição e saúde geral. A Ladainha do descontentamento, no entanto, pode ser um caminho para a resolução se for assertiva.
“O simples fato de reclamar dá a certas vidas um entusiasmo que as torna suportáveis”, escreveu Friedrich Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos. A frase nos convida a refletir: a expressão do descontentamento é um meio de fuga, uma reação orgânica ao desconforto, ou uma tentativa de expressão aguardando uma resposta? Reclamar alivia o problema que a causa, mesmo que não mude o estado das coisas?
O lamento se tornou tão onipresente que, por vezes, passa despercebido. Essa “ladainha do descontentamento” pode ter sido esvaziada de significado, como já observava o filósofo e teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard no século XIX: “As pessoas me entendem tão pouco que nem entendem minha queixa, que não me entendem.”
À medida que o descontentamento generalizado se espalha por todas as áreas da vida humana – seja por tédio, hábito, sem fundamento, como último recurso, por descrença ou como um ato reflexo –, os principais centros de pesquisa do mundo começaram a registrar cientificamente o quanto e o que uma reclamação produz.
O Hábito de Reclamar: Números e Percepções
Um antigo estudo da Universidade de Stanford, realizado em 1996, estimou que uma pessoa, em média, reclama entre 15 e 30 vezes por dia. Natalie Biderman, atualmente pesquisadora do departamento de psiquiatria da instituição, confirma que esses dados não foram atualizados, mas que a pesquisa se aprofundou em outros aspectos. “Conseguimos identificar que 64% das pessoas acham que reclamar prejudica sua saúde mental. E que, ao mesmo tempo, 96% das pessoas insatisfeitas não reclamam“, diz ela, apontando uma discrepância entre a percepção e a prática.
No entanto, um estudo mais recente da Universidade de Harvard, liderado por David Weil, professor de economia, revelou que as pessoas reclamam em média 48 vezes por dia. Já a empresa de treinamento em inteligência emocional Talent Smart mostrou em suas últimas pesquisas que a frequência pode chegar a uma vez por minuto.
Uma pesquisa realizada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) descobriu que 1 em cada 3 americanos afirma ter cortado relações com pessoas que reclamam demais. O estudo também apontou que quase 48% das reclamações eram sobre o preço das coisas, enquanto 33% eram sobre o trânsito. Surpreendentemente, quase 3 em cada 5 americanos reclamam com colegas de trabalho, e outros 42% desabafam com o chefe, argumentando que “pessoas fora do escritório não necessariamente entendem as frustrações do dia a dia”.
Reclamar: Um Mecanismo de Fuga ou Catarse?
Reclamar pode ser uma expressão de sofrimento emocional gerado pela discrepância entre expectativas e realidade. “É um mecanismo para evitar assumir responsabilidades, mantendo a pessoa no reino da impossibilidade. Isso a leva a se sentir cada vez mais frustrada”, explica Cristina Veiga, psicóloga da Fundação Aiglé. Ela complementa que reclamar é uma forma de “passar a responsabilidade para os outros, evitando assumir responsabilidades”, o que posiciona o reclamante em um papel de vitimização. “Torna-se prejudicial quando mantido por muito tempo e pode se tornar uma ferramenta de manipulação, gerando culpa no outro”, acrescenta Veiga.
Por outro lado, o velho ditado popular “não reclame se não for reclamar” inspira-se na sabedoria de que “reclamar é uma espécie de catarse”, afirma Laura Markham, psicóloga clínica da Universidade de Columbia. “Ao expressar nossos sentimentos em vez de reprimi-los, nos sentimos melhor.”
Um artigo científico publicado na Biblioteca Nacional de Medicina, liderado por Robin Kowalski, especialista do Departamento de Psicologia da Universidade da Carolina Ocidental, define reclamações como expressões de insatisfação, vivenciadas subjetivamente ou não, com o propósito de extravasar emoções ou alcançar objetivos pessoais. Sua pesquisa indica que “reclamar envolve uma equação em que a utilidade e o propósito da reclamação desempenham um papel central.” A decisão de reclamar pode depender da avaliação de que, ao fazê-lo, algo pode ser perdido, ou de que a queixa pode atrair atenção e apoio.
“Pode ser um comportamento saudável ou prejudicial”, diz Carolina Palavezzatti, psicóloga da Fundação Aiglé. “Se estivermos em uma situação social com estranhos, reclamar pode facilitar a interação social.”
O Impacto no Cérebro e na Saúde
“Reclamar ‘reprograma o cérebro’ e é prejudicial à saúde”, alerta Travis Bradberry, coautor de Inteligência Emocional 2.0. Segundo o especialista, o cérebro busca eficiência e tende a evitar trabalho desnecessário. “Repetir um comportamento como reclamar faz com que os neurônios se ramifiquem”, indica, “tornando mais fácil que esse comportamento ocorra com o ato repetido, talvez sem que você perceba”. O cérebro se adapta por meio da neuroplasticidade.
Outro estudo da Universidade de Stanford mostra que reclamar reduz o tamanho do hipocampo (a estrutura cerebral localizada na face medial do lobo temporal). “A exposição a reclamar por 30 minutos por dia reduz o tamanho do hipocampo, cujas principais funções estão relacionadas à memória episódica de longo prazo (eventos pessoais) e à regulação emocional”, explica Cristina Veiga. Isso também afeta o processamento cognitivo e a aprendizagem, pois o hipocampo se conecta à amígdala, responsável pelo processamento emocional, e ao córtex pré-frontal, impactando a tomada de decisões.
Reclamar repetidamente reconfigura o cérebro, aumentando a probabilidade de se tornar um comportamento padrão. “Com o tempo”, acrescenta Bradberry, “você descobre que é mais fácil ser negativo do que positivo, independentemente do que esteja acontecendo ao seu redor.”
O estresse gerado pela queixa crônica libera cortisol, o hormônio do estresse, colocando o corpo em modo de luta ou fuga. O excesso de cortisol a médio prazo enfraquece o sistema imunológico, aumenta o risco de depressão e prejudica a cognição. “Além disso, quando nos sentimos infelizes, a adrenalina é liberada”, acrescenta Veiga, “o que aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e a tensão muscular. A longo prazo, pode levar à insônia, ao enfraquecimento do sistema imunológico e ao risco cardiovascular.”
Outro efeito prejudicial ocorre nos neurônios-espelho, que “inconscientemente replicam o humor das pessoas ao nosso redor”, alerta Veiga. “Ouvir as queixas dos outros ativa as mesmas respostas fisiológicas.” A interação entre quem reclama e quem ouve é recíproca. “A psicologia prevê que, se a queixa não for expressa de forma ameaçadora ou destrutiva, a pessoa que ouve geralmente será construtiva e solidária”, explica Palavezzatti. “Mas se o conteúdo e a forma da queixa forem depreciativos, a pessoa que a recebe tenderá a responder com hostilidade.”
Síndrome de Calimero e Perfis de Reclamantes
O psicanalista francês Saverio Tomasella definiu a síndrome de Calimero, inspirada no personagem de desenho animado de uma galinha insatisfeita. Ele afirma que, por trás das queixas, geralmente há sofrimento real, “uma necessidade emocional repetidamente ignorada”, e que é um fenômeno “típico de uma sociedade à beira da implosão”. Tomasella sugere que quem reclama excessivamente muitas vezes já sofreu injustiças e teme revivê-las.
Todos reclamamos, mas nem da mesma forma. “Pessoas que são mais propensas a direcionar sua atenção para dentro, focadas em si mesmas, são mais propensas a reclamar”, alerta Palavezzatti. “Estados emocionais como ansiedade e depressão podem nos levar a voltar nossa atenção para dentro. O mesmo acontece com o tédio e a dor física.”
Certos traços de personalidade também estão relacionados. O neuroticismo – uma tendência a responder com emoções negativas a ameaças, frustrações ou perdas – está associado a mais reclamações. Já a amabilidade produz o oposto: “Aqueles que são mais agradáveis reclamam menos”, acrescenta.
Um estudo liderado por Evangelia Demerouti, da Universidade de Eindhoven, descobriu que pessoas mais inteligentes reclamam menos. “Confirmamos que aqueles que expressaram sua raiva estavam com pior humor, sentiam menos satisfação e orgulho de seu trabalho e eram significativamente mais propensos a se sentir menos felizes e a experimentar menor autoestima”, diz Demerouti. Reclamar de um evento negativo envolve vivenciá-lo duas vezes. Aqueles que “desabafam sua raiva avaliando como farão melhor na próxima vez” se sentem menos frustrados. Daniel Goleman, fundador do conceito de educação emocional, afirmou que uma das facetas da inteligência emocional é “a capacidade de expressar queixas em forma de crítica positiva”, ou seja, a assertividade.
Demerouti descobriu que reclamantes crônicos frequentemente: não deixam o passado para trás; assumem pouca responsabilidade; são atraídos pelo lado negativo; são inflexíveis; sentem-se confortáveis com o problema; e não aceitam críticas positivas.
O Lado Positivo da Reclamação e Como Mudar
“Reclamar pode ser tão negativo quanto positivo”, afirma Margot Bastin, especialista em relacionamentos da KU Leuven. Para ela, a chave é linguística. Ela acredita que algumas opções, como desabafar e resolver problemas, não devem ser incluídas no conceito de reclamação. “Uma reclamação prejudicial”, ressalta, “é aquela que nos leva a ruminar sobre um arrependimento. Mas, quando é a expressão consciente de algo e é possível desvendar seu propósito, pode ajudar a articulá-lo estrategicamente.”
Compartilhar o que nos incomoda de forma amigável e não ameaçadora facilita o recebimento de apoio. “Transformar as reclamações em um caminho para resolver os problemas que nos causam esse incômodo transforma a reclamação em um caminho positivo para a ação”, sugere Palavezzatti. Reconhecer o que pode ser mudado e o que não pode também é uma forma apropriada de canalizar a frustração. “Nem tudo tem solução. Aceitação é positiva.” Veiga acrescenta: “Se a reclamação for voltada para a mudança, ela fortalece os relacionamentos e promove a empatia.” Permite a liberação emocional, contribui para a conexão social e estimula a busca por apoio.
Por outro lado, nunca reclamar é uma expressão de imaturidade emocional. “Fazer um esforço para nunca se sentir mal está associado a efeitos fisiológicos negativos”, diz Bastin. “Identificar seus sentimentos e expressá-los sem deixar que se tornem o único assunto de conversa pode ajudar a reduzir o sofrimento que eles causam.”
Quando se liberta da rotina de reclamar constantemente, é possível conectar-se com o aborrecimento ou a frustração, oferecer um caminho a eles sem cair em uma ladainha e perceber que, como disse Mario Benedetti, “sempre tem alguém pior”, para colocar as coisas em perspectiva.
O Que Podemos Fazer Para Reclamar Menos e Melhor?
- Busque Soluções: “Reclamar é permitido se for para expressar insatisfação e buscar uma solução. Isso nos aproxima de receber apoio e carinho e é o primeiro passo para resolver ou aceitar o que nos afeta”, explica Carolina Palavezzatti.
- Conscientização: “Estar ciente de como isso pode afetar negativamente o próprio humor e o dos outros reduzirá a motivação para reclamar”, diz Natalie Biderman.
- Terapia e Estratégias Adaptativas: “Transforme reclamações em ações concretas e evite generalizações negativas. A psicoterapia ajuda a identificar padrões disfuncionais e substituí-los por estratégias mais adaptativas”, diz Cristina Veiga.
- Empatia: “Reconheça os seus próprios sentimentos e os dos outros. Quando alguém estiver chateado, tente demonstrar empatia”, diz David Weil.
- Pratique a Gratidão: “Para nos ajudar a sentir menos pena, também é uma boa ideia praticar a gratidão pelas coisas positivas que nos acontecem o máximo possível”, diz Carolina Palavezzatti.
- Controle o Tempo da Queixa: “Reduza o tempo que você tem para reclamar. É difícil, mas você pode se permitir reclamar um certo número de vezes por dia ou reclamar apenas pela manhã, por exemplo”, sugere Laura Markham.
- Transforme Reclamação em Feedback: “Quando você se deparar com um desafio, substitua a reclamação por um pedido de feedback construtivo de pessoas em quem você confia”, acrescenta Travis Bradberry.
- Ação Concreta: “Transforme reclamações em ações. Encontre soluções concretas. Pergunte a si mesmo: o que vou fazer a respeito?”, conclui Cristina Veiga.













