Cantora, atriz, apresentadora e empresária faleceu neste domingo, após quase dois anos de luta contra a doença, que a levou a tratamentos no Brasil e nos Estados Unidos. Sua transparência e força inspiraram o país.
É com profunda tristeza que o Brasil se despede de Preta Gil, cantora, atriz, apresentadora e empresária, que faleceu neste domingo (20), aos 50 anos. A informação foi confirmada por sua assessoria de imprensa. Preta passou as últimas semanas nos Estados Unidos, onde tentava um tratamento experimental contra a doença.
Filha do renomado cantor e compositor Gilberto Gil, Preta enfrentou uma batalha contra um câncer no intestino por quase dois anos, um percurso que a levou a diversas cirurgias e exames no Brasil e, por fim, a um tratamento de ponta nos Estados Unidos. A maneira corajosa e transparente como Preta lidou com a doença emocionou o Brasil e a tornou um símbolo de força. “Sei que fiz a escolha certa em dividir com as pessoas as minhas vulnerabilidades e meus sofrimentos. Mas com a cabeça erguida, como sempre foi, desde o começo”, disse ela quando venceu o Prêmio Faz Diferença, do GLOBO, em 2024.
A Trajetória da Doença
Preta Maria Gadelha Gil Moreira foi diagnosticada em janeiro de 2023 com adenocarcinoma, um câncer no intestino. Após cirurgia e intensos tratamentos de quimioterapia e radioterapia, a cantora chegou a anunciar que a doença estava em remissão. Contudo, em agosto de 2024, ela veio a público para comunicar que o câncer havia retornado em diferentes partes de seu corpo: dois tumores nos linfonodos, um nódulo no ureter e metástase no peritônio.
Em dezembro de 2024, ela passou por uma cirurgia complexa que durou mais de 18 horas para a retirada de tumores espalhados pelo corpo.
Busca por Tratamento nos EUA e Apoio
Em maio de 2025, Preta Gil viajou aos Estados Unidos. Lá, realizou uma consulta no Virginia Cancer Institute, em Washington, para avaliar a possibilidade de integrar grupos de pacientes que recebem tratamentos inovadores. Em seguida, seguiu para Nova York para exames no renomado Sloan Kettering Cancer Center, uma instituição de referência mundial em tratamento e pesquisa de câncer. Amigos e familiares se revezaram na cidade americana para acompanhá-la, e a cantora continuou compartilhando parte de sua rotina nas redes sociais, mostrando sua determinação. “Mais uma dose”, escreveu em uma de suas fotos.
Em participação no programa “Domingão com Huck”, da TV Globo, Preta havia compartilhado a ideia de dar continuidade ao tratamento fora do Brasil. “Sou grata por passar por tudo isso podendo me tratar com dignidade. Entro em uma fase difícil. No Brasil, já fizemos tudo que podíamos, agora a minha chance de cura está no exterior, e é para lá que eu vou”, disse, na ocasião, demonstrando sua esperança e sua garra.
Legado Artístico e Pessoal
Preta Gil lançou seu primeiro álbum, “Prêt-à-porter”, em 2003, época em que seu pai, Gilberto Gil, era Ministro da Cultura. O disco trazia um repertório que mesclava pop, MPB, samba e funk. A capa e o encarte do CD, em que aparecia nua, causaram polêmica. Em entrevista a Fernanda Young, ela declarou que o burburinho não teria acontecido se ela fosse magra. A partir desse momento, Preta se tornou uma referência para a autoaceitação feminina, posicionando-se firmemente contra a pressão estética pela magreza e os padrões físicos.
O segundo disco, “Preta”, veio dois anos depois, seguido pela turnê e o DVD “Noite Preta”. Em 2010, ela apresentou o talk show “Vai e vem”, com conversas sobre sexo, no canal GNT. Seu terceiro álbum, “Sou como sou”, foi lançado em 2012. No ano seguinte, ela comemorou dez anos de carreira com a gravação do DVD “Bloco da Preta”, que contou com a participação de grandes nomes como Lulu Santos, Ivete Sangalo, Anitta, Israel Novaes e Thiaguinho. O terceiro álbum de estúdio, “Todas as cores”, veio em 2017.
Em 2009, a cantora lançou o Bloco da Preta, que rapidamente se tornou um sucesso no carnaval do Rio de Janeiro e, dez anos depois, estreou em São Paulo. Bissexual, ela era vista como um símbolo de empoderamento para a comunidade LGBTQIA+, sempre defendendo a diversidade e a inclusão.
Em paralelo com a carreira musical, Preta também atuou em novelas como “Caminhos do coração” (2007) e “Os Mutantes” (2008), da Record. Na TV Globo, participou da série “As cariocas” (2010) e da novela “Cheias de charme” (2012); além de filmes como “Billi Pig” (2011), “Crô em família” (2018) e “Filho da mãe” (2022).
Além da música e das novelas, Preta Gil também se dedicou aos negócios. Em 2017, fundou a Mynd, ao lado de Fátima Pissarra e Carlos Scappini. A empresa é especializada em música, marketing de influência e entretenimento, consolidando-a como uma empresária de sucesso.
Vida Pessoal e Autobiografia
Filha de Gilberto Gil e de Sandra Gadelha, Preta foi casada com o ator Otávio Muller, com quem teve seu único filho, Francisco Gadelha Gil Moreira Muller de Sá. O segundo casamento foi com o mergulhador Carlos Henrique de Lima. Entre 2015 e 2023, ela foi casada com o personal trainer Rodrigo Godoy, relação que terminou durante seu tratamento contra o câncer, após ela descobrir uma traição.
Em agosto de 2024, Preta lançou sua autobiografia, “Preta Gil: os primeiros 50”, pela Globo Livros. “Vivi muitos altos e baixos, não foi uma vida fake. Foi vivida com tudo de bom e de ruim”, disse ela ao GLOBO na ocasião do lançamento. O livro, que não segue uma ordem cronológica, começa com seus relatos sobre a descoberta do câncer. Lembra da infância no Rio, as primeiras experiências amorosas (com mulheres e com homens), o acidente de carro que matou o irmão Pedro, em 1990, o sucesso como jovem produtora e o dia em que posou nua para a capa de seu primeiro álbum, “Prêt-à porter”, em 2003.
“Com o disco, tive uma compreensão muito forte de que não era o mundo da “Preta no País da Tropicália”. Existiam pessoas que pensavam diferente de mim, que educavam seus filhos de forma diferente dos meus pais, com preconceitos, moralismos, racismo, gordofobia, machismo”, disse ela na entrevista. “Tive que começar a lidar com a realidade, com pessoas que me julgavam, me odiavam. Isso foi um baque, mas enfrentei, enfrento até hoje, e tenho vencido, acho.”
Preta Gil tinha Gal Costa como madrinha e uma grande paixão. “Minha madrinha sempre foi uma grande paixão. E, mais do que do meu pai, eu queria era estar atrás dela”, relembra Preta na autobiografia. “Na infância e adolescência, fui muito próxima dela. Na vida adulta, a gente se encontrava muito esporadicamente. Mas, a partir de 2017, quando gravamos a música “Vá se benzer”, a gente virou amiga mesmo, de trocar ideia, de ligar para saber como estavam as coisas”, afirmou.
Preta Gil, uma voz potente e um espírito livre, deixa um legado de autenticidade, inclusão e coragem, que inspirou e continuará a inspirar gerações.













