Pesquisa da UFRJ Revela Complexidade Genética e Questiona “Pureza” do Fila e do Fox Paulistinha

Estudo publicado nesta sexta-feira (17) utilizou sequenciamento de DNA mitocondrial para reconstruir a linhagem materna das principais raças brasileiras. Resultados indicam múltiplas origens e ausência de conexão direta com grupos ancestrais tradicionais, reforçando que a diversidade genética é a chave para a saúde canina.

Rio de Janeiro/Brasil — Uma investigação científica conduzida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), está reescrevendo a história das raças caninas genuinamente brasileiras. Publicado hoje na revista Genetics and Molecular Biology, o estudo analisou o genoma do Fox Paulistinha (Terrier Brasileiro) e do Fila Brasileiro (Mastim), revelando que a trajetória evolutiva desses animais é marcada por uma miscigenação muito mais rica e complexa do que os manuais de cinofilia registram.


A Ciência por Trás do DNA

Para desvendar os segredos da ancestralidade, os pesquisadores utilizaram o sequenciamento do DNA mitocondrial. Como esse material genético é transmitido exclusivamente pela mãe, ele permite mapear a linhagem materna sem as interferências de cruzamentos recentes.

  • O Achado: Diferente do que se acreditava, o Fox Paulistinha não possui uma conexão genética direta e exclusiva com os terriers europeus, assim como o Fila Brasileiro não descende linearmente apenas dos mastins.
  • Conclusão: As raças apresentam múltiplas origens maternas, sugerindo cruzamentos informais e não registrados ao longo dos séculos que consolidaram suas características atuais.

O Risco da Busca pela Homogeneidade

O coordenador da pesquisa, Francisco Prosdocimi, traz um alerta importante para criadores e tutores: a busca incessante pela “pureza racial” pode ser biologicamente prejudicial.

  1. Endogamia: O isolamento reprodutivo para manter padrões estéticos leva ao acúmulo de genes desfavoráveis.
  2. Resiliência: O estudo prova que animais com maior diversidade genética tendem a ser mais saudáveis, resistentes a doenças e com maior longevidade.
  3. Morfologia vs. Genética: A classificação física (aparência) nem sempre condiz com o que o genoma revela sobre a origem real do animal.

[Image showing a high-quality professional graphic: A split screen showing a Fila Brasileiro and a Fox Paulistinha, with a DNA double helix intertwining them and a microscope view of genetic markers, text “CIÊNCIA BRASILEIRA: A VERDADEIRA ORIGEM DAS NOSSAS RAÇAS”]


Impacto no Manejo e Conservação

A descoberta é um marco para a biologia evolutiva e para o mercado de criação de cães no Brasil. Ao entender que a “identidade brasileira” dessas raças é fruto de uma mistura natural e adaptativa, o manejo reprodutivo pode ser orientado para priorizar a saúde em vez de apenas traços físicos. Isso é especialmente vital para o Fila Brasileiro, que em algumas linhagens já apresenta problemas de saúde crônicos associados ao parentesco próximo.

Próximos Passos da Investigação

A equipe da UFRJ e do Inca pretende agora ampliar a amostragem, comparando os cães brasileiros com outras raças da América Latina. O objetivo é criar um banco genético robusto que ajude a identificar como o ambiente e a história do continente moldaram o genoma dos cães domésticos na região. O estudo de 2026 encerra um ciclo de dúvidas e abre uma nova visão científica: a beleza das raças brasileiras reside, justamente, em sua diversidade.

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