Investigação de contra-inteligência foi aberta após o fracasso inexplicável da Operação ‘Snowblind’. Condenado a 6 anos e 10 meses, militar repassava dados estratégicos em troca de lotes de 25 gramas de crack e chegou a liberar o acesso a imóveis sob cerco policial no Centro-Oeste em 2026.
Formiga, MG — O desdobramento da prisão de um sargento da Polícia Militar de Minas Gerais, ocorrida na última sexta-feira (15/05) em Formiga, trouxe a público a anatomia de uma das investigações mais sensíveis de desvio de conduta na região Centro-Oeste. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e as corregedorias integradas detalharam o modus operandi do militar que, movido pela dependência ou pelo comércio ilícito, converteu seu acesso a informações de segurança em moeda de troca com o crime organizado.
A Gênese da Investigação: O Fator ‘Snowblind’
O desmantelamento do esquema criminoso operado pelo sargento não ocorreu por acaso, mas sim por meio de um monitoramento técnico que detectou anomalias no cumprimento de ordens judiciais.
- A Desconfiança: Durante a deflagração da Operação “Snowblind”, coordenada de forma conjunta pelas polícias Civil e Militar, os agentes de campo depararam-se com casas vazias, ausência de lideranças e cofres limpos. O cenário indicava claramente que o fator surpresa havia sido quebrado.
- Contra-Inteligência: Uma força-tarefa interna passou a auditar os logs de acesso aos boletins de inteligência, cruzando dados de antenas de celular e horários de consultas de sistemas restritos, o que apontou diretamente para o sargento.
O Escambo por Entorpecentes e a Sabotagem Coberta
As provas anexadas ao processo criminal desenham uma rotina de cooperação contínua entre o policial e gerentes do tráfico regional entre os anos de 2021 e 2022.
- A Moeda de Troca: A tabela de pagamento fixada pelo sargento para trair o sigilo das operações era de aproximadamente 25 gramas de crack por lote de informação transmitida.
- Prejuízo Institucional: Além da “Snowblind”, o sargento torpedeou o planejamento da Operação “Leão de Nemeia”. O vazamento prévio impediu o confisco de volumes expressivos de pasta-base de cocaína e permitiu a evasão de criminosos de alta periculosidade que já estavam com a prisão preventiva decretada.
Quebra de Protocolo e Conivência em Campo
O MPMG revelou ainda que a ousadia do sargento estendia-se para além do envio de mensagens de texto ou avisos em aplicativos. Em uma das operações de campo, na qual sua única atribuição técnica era fazer o cerco de isolamento (vigilância perimetral) nos fundos de uma residência alvo de busca e apreensão, ele deliberadamente abandonou o posto de guarda para dar passagem e permitir a entrada de uma civil na cena do crime, violando o espaço resguardado pela Justiça.
Desarquivamento e Condenação Unificada
Diante da robustez das evidências de que o militar estava consorciado com os traficantes de forma estável, os promotores de Justiça da comarca de Formiga solicitaram o desarquivamento de procedimentos policiais anteriores, como a operação “Alma à Venda”.
A soma das infrações penais resultou em um veredicto condenatório de 6 anos e 10 meses de reclusão, com a perda imediata das funções públicas e o cumprimento da pena capitulado sob três tipos penais específicos:
- Corrupção Passiva Qualificada: Pela venda dos atos de ofício;
- Associação para o Tráfico de Drogas: Pelo vínculo permanente com a facção;
- Descumprimento de Missão: Crime militar previsto no Código Penal Militar por deixar de exercer a ordem direta de comando.
O sargento, que já estava afastado das ruas desde os primeiros indícios apurados na Operação “Tropa de Elite” em 2023, foi recolhido ao núcleo prisional militar, onde iniciou a execução da pena privativa de liberdade decretada pelo Poder Judiciário em maio de 2026.













